Essa
noite não consegui dormir direito. Mapas, ferramentas, roupas, sabonete, luvas,
documentos misturados com asfalto, poeira, curvas, vulcões, Incas e longas,
longas faixas amarelas sobre o asfalto insistiam em desfilar, num quadro
surrealista por minha cabeça.
5:00
da manhã. A ansiedade me obrigou a pular da cama. Às 5:30 já estava ao lado da
moto revendo o que já chequei um milhão de vezes. Prometo que vou concluir a
arrumação de forma lenta e organizada. Um minuto depois já havia esquecido a
promessa. Últimos detalhes. Capacete sobre o retrovisor. Roupa no local certo.
6:30.
Me despeço da Jane, e da turminha animada de cachorros. Aciono a BMW F 800 GS
Adventure, seu ronco suave baixou um pouco minha ansiedade. Sigo lentamente pelo
mesmo caminho que faço todos dias à pé, até a padaria do amigo Alexandre
Segate. Tomo meu café da manhã, aparece o Heber Alfarano, um fotógrafo
motociclista e grande amigo, para registrar a saída. Tiramos algumas fotos
juntos, incluindo o Rolhemberg que também estava por ali com sua esposa.
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Abraços,
votos de boa viagem e feliz retorno. Isso soa como conforto para a alma da
gente. Quando percebo, a BM já está roncando novamente. Atravesso a ponte do
Rio das Mortes, está lindo. Começo a pensar no tamanho da tarefa pela frente,
serão quase 10.000 km, sozinho.
Lembro-me
de Paul Salopeck, aventureiro que está refazendo a pé, o percurso de dispersão da
humanidade desde seu berço na África para o resto do mundo, por cerca de 30.000
km. Como ele disse: “começa aqui uma
longa jornada no encalço de uma idéia, talvez uma miragem”. Ou, no meu
caso, também um acerto de contas com o tempo.
Deixo
Nova Xavantina em Mato Grosso para trás, às 7:00 da manhã. É uma manhã fresca
(para os padrões de Mato Grosso) que promete um dia claro. O primeiro trecho é
até Barra do Garças, à cerca de 150 km,
pela BR 158, com asfalto de boa qualidade. Abasteço na entrada da cidade, vou
até o centro para visitar meus pais, tomar um café reforçado com pão de queijo
da minha mãe. Chegam também meus filhos Cesar Jr e Tatiana, para a despedida.
Fotos, abraços, votos de boa viagem, cuidado, tenha cuidado, vá devagar, não
corra... (traumas de mãe, de nosso tempo atribulado - e que já vai longe - de
juventude motociclística pelas ruas dessa cidade).
Deixo
Barra do Garças às 10:00 da manhã. De Barra até Primavera do Leste, são
aproximadamente 280 km pela BR 070, com asfalto em boas condições até próximo a
Primavera. Nos últimos 50 km o asfalto é eternamente ruim, encaroçado. A
suspensão macia da GS 800 Adventure funciona muito bem. Dá pra alisar a maioria
sem sentir quase nada. Abasteço e tomo um lanche no Posto Barril, em Primavera.
Assim como os caroços do asfalto, o pastel se tornou uma marca registrada do
posto ao longo do tempo. A diferença é que o pastel é muito bom.
Sigo
para Campo Verde, mais ou menos 100 km, com estrada relativamente boa e daí
para Chapada dos Guimarães, pela MT 251. Enfim livre do absurdo trânsito de
caminhões, centenas deles por todos os lados. Acho que são proibidos na MT 251,
ou simplesmente não tem muito o que fazer nessa região. A estrada de forma
geral está boa, mas um ou outro buraco muito profundo no asfalto demanda
cuidado na pilotagem. Chego em Chapada às 16:00 h depois de rodar 595 km nesse
primeiro dia. Hospedagem no Hotel Turismo por R$ 80,00. Primeiro dia da
expedição completo. Estou impressionado com a ergonomia da moto. Nenhuma
dorzinha no corpo sequer, mesmo do alto (ou debaixo) dos meus 55 anos. Dá
vontade de continuar pilotando noite adentro.
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Portal de entrada da
cidade turística de Chapada dos Guimarães, para quem vem de Campo Verde. Muito
tímido, para a beleza da região.
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MT 251 – Estrada que
vai de Campo Verde a Cuiabá, passando por Chapada dos Guimarães em Mato Grosso.
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Hotel
em Chapada dos Guimarães. Simples mas acolhedor e com bom preço
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