segunda-feira, 13 de outubro de 2014

10/05/2014 – Rio Branco a Puerto Maldonado


Saio de Rio Branco às 7:30 da manhã, quero chegar cedo na fronteira, pois li alguma coisa sobre fecharem tudo na hora do almoço, entre 12 e 14:00 horas. A saída da cidade é bem fácil, é só seguir reto pela principal avenida que continua pela AC 040. Uma rodovia em bom estado e com pouco movimento. Alguns quilômetros após a cidade de Senador Guiomar, pego a BR 317 à direita e sigo para Assis Brasil. Essa é a rodovia do Pacífico do lado Brasileiro. Foi recapada, mas em vários trechos a recapagem já foi embora e ficaram os buracos. De forma geral está boa, mas em alguns trechos o asfalto simplesmente desapareceu. Ficaram as placas alertando que há desmoronamentos, fim de asfalto, buracos e coisas assim. É isso até a fronteira.

Passei pelo entroncamento com a Estrada da Borracha, a estrada que leva até Xapuri, cidade onde viveu e morreu assassinado o líder seringueiro Chico Mendes. Não dava pra desviar e ir até lá, senão não conseguiria chegar até Puerto Maldonado de dia. Fica pra uma próxima. Sigo em frente para Epitaciolândia e Brasiléia, ambas na divisa com a Bolívia. O que separa as duas cidades é o Rio Acre. É como se fosse uma só e poderiam ser. Poucas cidades são tão mal cuidadas. Acho que ali reina o padrão boliviano de cuidados com as cidades, não que o padrão brasileiro seja lá grande coisa, mas lá é pior. Principalmente Brasiléia, a avenida principal, que também é a BR 317, é só buracos e barro esparramado por todo lado. Um caos. Aqui, como na maioria das cidades do Norte e Nordeste, ninguém usa capacete para pilotar motos. Os motociclistas alegam que é muito quente, os políticos, a quem caberia determinar a fiscalização alegam que perderiam votos se obrigassem-nos a usá-los. Assim seguem, os primeiros perdendo a vida e os outros ganhando as eleições. No final da cidade parei para tirar fotos da mal cuidada placa que anunciava que ali começava a estrada do Pacífico, a famosa rota transoceânica. Adorei deixar Brasiléia para trás. Toco firme rumo à fronteira.

Saída das Cidades de Brasiléia e Epitaciolândia.

Placa da Estrada do Pacífico em solo brasileiro. Recém inaugurada, não tem acostamento, está esburacada em muitos trechos e com cara de total abandono.
Em vários pontos de BR 317 – a Estrada do Pacífico do lado brasileiro, o asfalto simplesmente desapareceu.

          Chego a Assis Brasil às 11:20 horas. Logo na entrada da cidade há a serviço de migração na polícia Federal Brasileira. Tenho que fazer a saída do Brasil ali. Parece que está mesmo tudo fechado na fronteira, não vejo ninguém. Estaciono a moto, e vou ver se tenho alguma informação. Tudo fechado. Chega um taxista pra deixar alguém e me informa que tem expediente sim, é uma salinha do lado esquerdo de quem chega, com a porta fechada, mas com aviso de entre, sem bater (achei simpática a placa). Bati e entrei, o pessoal da Federal estava lá dentro, despachando outra pessoa, foram super amáveis e muito rápidos. Informaram-me os passos seguintes até a imigração do lado peruano, que fica a alguns quilômetros (acho que uns 3) dalí. Sigo pensando: estou em um limbo diplomático neste momento. Legalmente não estou no Brasil e nem entrei no Peru. Estranho esse trecho. Novamente cruzo o rio Acre, agora sim, entro do lado peruano, com direito a placa de boas vindas (bem cuidada) e tudo. No capacete ecoa mais um Uhhuuuu. Mais uma fronteira no currículo.               Logo chego à imigração peruana. Bem sinalizada, com pessoal muito amável, é super rápida e atende mesmo no horário do almoço. Tenho que atravessar a rua, com a moto para levá-la até a aduana, que fica do outro lado e fazer os trâmites de sua transferência temporária para o país dos Incas. Me pedem fotocópias de passaporte, carteira de habilitação e dos documentos da moto (de lambuja, mostro as cópias da PID e do cartão de vacinação também, já que ninguém pediu). Já havia tirado tudo antecipadamente. Pediram também uma cópia da tarjeta que eu havia acabado de receber do outro lado da rua, na imigração. Essa eu não tinha, lógico. Não sei porque não fazem logo em duas vias, já que vão pedir uma para ficar na aduana. Saí para tirar uma cópia, aí percebo que, quem disse que fechava tudo na hora do almoço tinha certa razão. Não consigo achar quem faça uma cópia do tal documento, porque tudo está fechado. Com um pouco de insistência uma mocinha se prontificou a interromper seu descanso para me ajudar. Maravilha. Na aduana foram rápidos e amáveis também. Os policiais até pediram para tirar umas fotos ao lado da moto. Boas vindas ao Peru. Troquei reais por soles ali mesmo, ao lado da aduana. Tem um monte de cambistas nos barzinhos ao lado, inclusive uma brasileira, que esqueci o nome. Tomei minha primeira Inka Cola, em homenagem ao Peru e me mandei selva adentro.

Alfândega Brasil/Peru.

Placa de boas vindas na divisa Brasil/Peru.

Primeiro abastecimento no Peru, ainda em Iñapari, em um grifo PEMEX. Gasolina um pouco mais cara que no Brasil, mas de ótima qualidade, foi assim em todo o Peru.

A estrada até Puerto Maldonado é inteira dentro da floresta Amazônica peruana, assim como foi em parte do Acre. A diferença é que na parte peruana, quase não foi desmatada e ainda se pode sentir o cheiro da floresta nas margens da estrada. A rodovia é fantasticamente bem cuidada e sem movimento. É o paraíso para um motociclista que goste de viagens e natureza. Passo por inúmeros pequenos povoados, a grande maioria com muitos animais nas margens da estrada, muito bem sinalizada e que todos andam dentro dos limites de velocidade. Há uma quantidade imensa de pequenas e velhas motos fabricadas na China que circulam lentamente com duas três, quatro e até cinco pessoas em cima, todos sem capacetes ou qualquer outra coisa de proteção. Viva a liberdade da América do Sul.

Estrada na Floresta Amazônica Peruana.

Nas estradas da cordilheira é muito comum o trânsito de motocicletas com várias pessoas, todas sem qualquer tipo de proteção.

Depois de Puerto Maldonado, em direção à Cusco boa parte da estrada margeia o belíssimo rio Iñapari. É uma paisagem belíssima, com uma mistura de Floresta e o rio repleto de pedras originárias da cordilheira dos Andes.

Parei na margem da estrada para tirar umas fotos da floresta e logo um senhor em uma pequena moto um tanto quanto combalida pelo excesso de uso, se aproximou, perguntou se eu não queria comprar algum tipo de bolo, eu não quis. Ele fez algumas perguntas sobre a moto e meu destino, me disse que vendia bolos diariamente de casa em casa. Elogiou minha moto, me desejou boa viagem e continuou vendendo seus bolos pela margem da rodovia. Mais adiante, passei por ele, parado em um grupo de pessoas que comiam animadamente seus bolos. Acenou-me efusivamente quando me viu, businei, acenei, e fui embora. Já tinha um amigo nas estradas do Peru.
As 17:00 horas cruzo o rio Madre de Dios pela belíssima ponte de ferro recém construída e entro em Puerto Maldonado. É uma cidade com trânsito complicado, com uma quantidade imensa de mototaxistas que buzinam o tempo todo. O GPS não funciona lá. A cidade simplesmente não é mapeada. Para evitar perda de tempo, pedi a um mototaxista que me guiasse ao hotel, o que me custou 2 soles (aproximadamente R$1,70). Fiquei no hotel La Torre Valsai. Uma ótima relação custo/benefício. O gerente, Romário já viveu no Brasil e é extremamente gentil e atencioso com os clientes. Também fica relativamente próximo à saída para Cusco, na rota Transoceânica.

Ponte sobre o lendário rio Madre de Dios em Puerto Maldonado, com mais de 700 metros de extensão.

Hotel La Torre Valsai, em Puerto Maldonado. Bom preço com ótimo atendimento e bem localizado.

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