sexta-feira, 17 de outubro de 2014

11/05/2014 – Puerto Maldonado - Marcapata






Era um domingo e resolvi dormir até um pouco mais tarde, com isso, quando saí do hotel já eram 8:30. Ainda perdi um bom tempo indo até a ponte sobre o rio Madre de Dios para tirar algumas fotos. Tem uma pracinha em frente à ponte, onde várias crianças com os pais pediram para tirar fotos na moto. Consenti, lógico, mas com isso mais tempo se foi. Saí de Puerto Maldonado, já era mais de 9:30 da manhã. Ainda tinha uma longa jornada pela frente. 
Essa cena se repetiu várias vezes ao longo da viagem, principalmente com crianças, que pediam para tirar fotos sobre a moto. Geralmente, os pais também aproveitavam a oportunidade. Fico imaginando quanto tempo essa criança guardará essa foto como recordação: 1, 10, 30 anos, a vida toda?

 A rodovia transoceânica  (30 C) após Puerto Maldonado continua muito boa e bonita. No início há grandes retas, muito bem cuidadas e sinalizadas, dá pra andar bem. Logo surgem as primeiras curvas do início da cordilheira, igualmente bem sinalizadas e cuidadas. O movimento é pouco, com um ou outro caminhão, pouquíssimos carros de passeios e algumas motocicletas de baixa cilindrada e triciclos de frete. Enfim, é como se a estrada fosse minha. Ao longo de toda a estrada, mesmo com ela muito boa, é constante a presença de equipes de manutenção e da polícia, que sempre me cumprimentavam com buzina ou sinal de farol e acenos de mãos. Já me sentia amigo da polícia peruana. O que mais me impressionou foi ver em vários pontos trabalhadores que lavavam as placas de sinalização, com água sabão e vassourão. Um luxo.

Uma "self " com a estrada margeando o rio e uma cachoeira descendo da montanha ao lado.
Após aproximadamente 170 km de Puerto Maldonado paro para abastecer em Mazuco e encontro dificuldades para conseguir gasolina. Quase todos os postos estão fechados ou não tinham o produto. Um casal de motociclista da cidade vendo que eu passava olhando para os postos fechados, me informou que havia gasolina na saída da cidade. Lá, o frentista me disse que não estava faltando combustível na região, mas que o governo havia fechado grande número de postos clandestinos, que não tinham autorização para venda de combustível. O rapaz que abasteceu a moto, me pediu um adesivo para colocar na bomba, ele fazia coleção. Inaugurei uma bomba nova, havia um número incrível de adesivos deixados por motociclistas naquele lugar. Ótima gasolina a do Peru. A média de quilômetros rodados por litro subiu sensivelmente, mesmo com a gasolina mais barata, que aliás está a aproximadamente o mesmo preço da gasolina brasileira (de Mato Grosso) ou até mais cara um pouco. O preço do galão (3,6 litros) aqui está entre $12,00 e $15,00 (doze a quinze soles).


Desse ponto em diante, a cordilheira dos Andes se apresenta e assume o comando da paisagem. É curva que não acaba mais, sempre em subida e no meio da floresta. Uma maravilha pilotar aqui, principalmente porque quase não tem movimento. Dá para aproveitar bem a paisagem.



Região central da cidade de Mazuco.

Estrada entre Mazuco e Marcapata. Muitas curvas entre as montanhas na Floresta Amazônica peruana.

Cheguei em Marcapata, a 190 km de Cusco, um pouco antes das 4 da tarde. Dava pra chegar em Cusco, mas já estava bem frio e com muita neblina. Assim, não daria para aproveitar a paisagem do alto da cordilheira e não teria tempo para fazer fotos. Resolvi ficar por aqui mesmo e seguir no dia seguinte. Isso já estava nos planos, caso chegasse meio tarde aqui. Enquanto isso, a espessa neblina já cobria todos os cumes de montanhas ao lado do povoado. A noite, e com ela o frio, chegaram rapidamente. Fiquei em uma pousada muito simples, por 20 soles, sem água quente, o fio do chuveiro havia sido cortado devido ao um curto-circuito. Era 5 da tarde e já estava escuro.



Estrada próximo a Marcapata (a cidade está no alto da montanha, logo à frente, à esquerda da foto), com muitas nuvens em volta.

O povoado de Marcapata fervilhava de gente, havia uma grande festa na pracinha principal, em homenagem ao dia das mães. Um grupo de pessoas, velhos e jovens dançavam animadamente ao som de uma banda local, músicas tradicionais do Peru. Por engano, entrei com a moto, carregada de bagagem, nessa praça e não havia como retornar, tive que passar entre as pessoas que dançavam, sob o olhar atendo de dois policiais. Pensei que iriam, no mínimo, me dar um “carão” pelo feito. Mas não, nem se incomodaram, enquanto isso, alguns casais de velhinhos, provavelmente animados por uma boa cerveja quente, dançavam animadamente em torno da moto, como que me saudando. Acenei amistosamente e lentamente me mandei dalí. Já sou amigo dos velhinhos peruanos.



Hostal onde passei a noite, na fria e enevoada Marcapata.






Fim de festa na praça central de Marcapata. Comemoração do dia das mães.


Tentativa de suicídio? Meu jantar em Marcapata foi esse tipo de espetinho de salsicha com uma batata na ponta e uma cerveja Cusqueña negra. Não tente repetir isso em casa!

Mais tarde, retornei a pé, para ver de perto a festa e comer alguma coisa antes de dormir. A maioria das pessoas era de campesinos das redondezas, que vinha em grupos familiares, em motos ou triciclos com carroceria de madeira e, lá pelas 11 da noite já tinham ido quase todos embora. Sumiram na neblina da cordilheira, num frio tremendo, com mães e crianças envoltas em grossas mantas, na carroceria, e os pais ao guidão do triciclo chinês. Sumiram assim, dezenas deles, noite adentro. Lá em baixo no povoado, eu ainda via alguns pequenos faróis desfocados pela neblina, passando no alto, pelas margens dos precipícios. Era o povo da montanha voltando ao lar. 



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